




- Os tempos de cursinho para medicina
- O vestibular
- O trote
- As festas de comemoração com os veteranos
- As competições esportivas pela atlética
- Novas amizades com a turma da classe
- A relação com os professores no primeiro ano
- As aulas (longas, teóricas e didáticas?)
- No laboratório de anatomia (o cadáver, a "decoreba")
- As provas e as primeiras notas
- O contato com os livros de medicina
- Para quem vem do interior: a "vida na cidade grande"
- O trabalho com os animais nos laboratórios
- Contato com os pacientes nas aulas de propedêutica
- A escolha dos grupos para o internato
- Ligas, monitorias, trabalhos científicos, congressos
- O internato (atendimento ao paciente, relação aluno-paciente,
relação aluno-preceptor, a teoria na prática, os plantões noturno)
- A escolha da especialidade
- Preparação para as provas de residência, as provas, as entrevistas
- A formatura (o dinheiro, as festas, as despedidas)
- Residência médica (ser médico)
- Trabalho de residente (horários, responsabilidade, impotência, reconhecimento)
- A entrada no mercado de trabalho
- Relação com os convênios
- Relação com os laboratórios
- O esforço para se manter atualizado
- O que a sociedade espera dos médicos
- Como a mídia mostra o médico
- As preocupações com o futuro
"Sabe lá o que é não ter e ter que ter amor pra
dar, sabe lá". Estes versos de uma canção de
Djavan sintetizam com rara precisão a situação
em que o médico foi colocado quando exigem
que ele sustente a relação médico-paciente em
níveis de humanismo e consideração que ele,
de uma maneira geral, nunca experimentou
em nenhuma de suas outras relações no seu
papel de médico. Como é possível dar tempo,
consideração e afeto se ele não recebeu nada
disto, ou recebeu muito pouco, durante sua
formação médica? Por outro lado o médico é
muito bom para dar técnica, competência, ci-
ência, pois disto ele recebeu muito. É simples,
como se diz popularmente, "a gente só dá o
que recebeu", ou de forma mais erudita, no di-
zer da psicanálise, "o analista só leva seu paci-
ente até onde ele foi". Não se dá o que não se
tem. Aqueles muitos médicos que podem ofe-
recer a seus pacientes, além de sua competên-
cia técnica, uma escuta compreensiva, paciên-
cia, e um gesto de acolhimento, provavelmente
aprenderam isto em sua formação pessoal e
familiar, e por isto não trataremos disto aqui.
Neste texto, nos interessa as relações que são
estabelecidas a partir do papel de médico. Que-
remos mostrar que a formação médica prepara
insulficientemente, ou não prepara o médico para
o que se espera dele no relacionamento com seu
paciente. Falar da relação médico-paciente sem
considerar as outras relações que o médico esta-
belece é um equívoco. Não produz muitos resul-
tados além de um discurso moralizante que, na
prática, não beneficia o paciente, pois o médico,
embora com boa vontade, não sabe bem como é
esse negócio de "uma boa relação". Propomos
que ao invés de um ponto final na frase "relação
médico-paciente", coloquemos uma vírgula que
abra espaço para considerarmos todos os outros
vínculos que envolvem o médico e que possa fa-
favorecer ou dificultar a sua tarefa de cuidar de
pessoas, mais do que tratar doenças. Vejamos,
então, em que momentos de sua carreira profis-
sional o médico foi cuidado como pessoa além de
ser ensinado cientificamente. A seguir vamos lis-
listar as situações mais freqüentes ao longo do
tempo de formação e início de carreira da vida de
um médico. Pense aí, no seu caso, quais destas
situações funcionaram como fonte de inspiração
para sua relação-médico paciente e quais delas
foram predominantemente fonte de stress. Sim,
é claro, nada é inteiramente bom ou inteiramente
ruim.